sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Entre chatos, alienados e completos idiotas

De férias em casa, me peguei lendo uma Veja. A matéria de capa sobre o poder fulminante das redes sociais e a decadência de certos ícones me chamou atenção, apesar de todas as minhas ressalvas quanto àquele suposto de veículo de comunicação. A matéria, apesar de extremamente opinativa, como praticamente todo o conteúdo da revista, pareceu-me até sensata. Os exemplos das reações cada vez mais rápidas da TV Globo em relação aos escândalos que brotaram esse ano, mostram o quanto as redes têm, de fato, exercido um sério poder sobre os tradicionais veículos de comunicação e seus próprios posicionamentos frente às situações que lhe afetam diretamente.
Em seguida, porém, veio um artigo de J. R. Guzzo falando da impossibilidade de se existir um Nelson Rodrigues no Brasil de hoje. Isso porque, segundo ele, Rodrigues seria massacrado pelas redes sociais, com suas crônicas machistas, racistas e demais preconceitos antes naturalizados e agora veementemente criticados pelo que  denominou de Comitê Brasileiro de Vigilância do Pensamento. Tal Comitê seria responsável por julgar e incriminar todo tipo de preconceito, tornando as pessoas verdadeiras juízas de valores (como se isso fosse algo meramente atual) e obrigadas a se posicionar a respeito de qualquer tipo de preconceito e intolerância. O título do artigo "Um país de chatos".
Não consegui ler até o final porque acredito que quem banaliza qualquer tipo de luta social - como é no caso dos grupos feministas contra o machismo e dos grupos negros contra o racismo - ou é um completo alienado ou é um completo idiota.
Lembrei ainda de um congresso que participei há um mês atrás, em que uma professora falou sobre a dificuldade de algumas pessoas de entenderem o que é o racismo e o quanto ele ainda se perpetua em nossa sociedade. Numa sala de aula cheia de alunos brancos, ela mostrou dois vídeos. O primeiro mostrava a história de africanos escravizados sofrendo toda a barbárie que a maioria já conhece, mas que parece não gerar nenhum tipo de empatia. Afinal, foi há tanto tempo, não é mesmo? Coisas que nós, em pleno século XXI, jamais seríamos capazes de fazer (se é que não continuamos fazendo, de outras maneiras).
O segundo vídeo era o clipe do rapper e produtor musical Emicida, Boa Esperança, em que empregados de uma mansão, principalmente negros, se rebelam contra o sistema de humilhação o qual são obrigados a passar, num misto de indignação ancestral e vingança atual.
Adivinhem em qual das duas apresentações a turma se sentiu mais chocada e até indignada? Claramente, assim como suas peles brancas, foi no segundo. Inclusive houve quem dissesse de um tal racismo às avessas, algo como preconceito às pessoas brancas.
É tão engraçado, como também extremamente trágico o fato das pessoas só sentirem empatia quando se sentem representadas. Eu me arrepiei ao ver o clipe, pois senti empatia ao ver aquelas empregadas tomando o lugar das patroas e patrões. Eu consegui ver, pelo menos em parte, o sofrimento que elas e tantas outras pessoas com traços e pele negra passam até hoje, simplesmente pela herança genética estampadas em seus corpos.
Eu não queria ser a dondoca que no início do clipe tira o batom da mulata que antes tinha sido assediada pelo seu marido. Eu queria ser a velha empregada preta que cospe no prato em que aqueles brancos malditos iriam comer. Porque eu sinto nojo dessa nossa sociedade hipócrita que chama de chatos aqueles que lutam pela independência. Eu tenho pavor dessa sociedade de argumenta de forma vazia sobre o sofrimento alheio, quando na verdade não sente nada além daquilo que lhe afeta diretamente. Porque não tem compaixão, não tem respeito nem amor ao próximo.
Tenho vergonha de carregar um fenótipo que me privilegia em relação aqueles que não o têm. Tenho horror a me enxergar como diferente pela pele que carrego sobre mim. Porque mesmo não sendo preta, eu consigo ter empatia por aqueles que o são. E é isso que me torna diferente daqueles que acham que vivemos numa sociedade de chatos.
Porque é essa empatia que me faz compreender o sofrimento daqueles que são diferentes de mim. Mesmo que eu não sinta o que eles sentem, eu mantenho o respeito ao seu sofrimento e não deslegitimo de forma tão vil sua luta cotidiana.
Não se trata de uma sociedade de chatos, por questionarem questões que se perpetuam até hoje - como o machismo, o racismo, a intolerância religiosa e sexual -, se trata de uma parcela da população que tem lutado com muita garra pelo reconhecimento e, principalmente, pelo respeito.
Quando não há um pingo de empatia pelos outros, é impossível se falar de intolerância e preconceito, porque quem questiona, quem luta e quem é diferente e tenta legitimar tal diferença é tido como chato.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

No dia em que fui roubada

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Há exatas duas semanas atrás, numa segunda-feira indo para a faculdade fui roubada. Nem sei exatamente como isso aconteceu. Na verdade, eu nem cheguei a ver o meliante. Só me dei conta da falta do meu objeto roubado quando cheguei na faculdade.
Fiquei horrorizada ao perceber que me levaram algo que não tinha valor algum que não fosse ideológico. Algo que não poderia ser trocado por dinheiro, que foi comprado por meros cinco reais numa tarde quente de primavera num breve intervalo durante a minha orientação de monografia.
Levaram-me mais que um simples objeto, levaram-me o direito de me expressar politicamente.
Naquele momento, fui silenciada, perdi o direito de opinar.
Raptaram-me uma das minhas verdades pessoais em discordar com o pensamento hegemônico que tem prevalecido na cabeça de muitos brasileiros. Calaram minha voz ao me negar o direito de dizer o que penso e fazer valer a minha própria voz.
Acima de uma Mafalda indignada com sua pequena mão erguida para o alto podia-se ler a frase que vem ecoando na minha cabeça há alguns meses.
"FORA TEMER!"
Era o que estampava um broche, ou como dizem atualmente um bottom, que eu levava na minha mochila laranja.
Como eu posso ter certeza de que ele não caiu? Por conta da forma como eu preguei o alfinete, exatamente para tentar impossibilitar que ele fosse removido da minha bolsa. O que acabou acontecendo de qualquer forma.
Se quem fez isso tinha intenção de se apoderar para uso pessoal, shame on you.
Se estou criticando um governo corrupto e roubo, estou sendo conivente e acabo apoiando aquilo que eu repudio.
Agora, se quem fez isso está do lado do impeachment e, consequentemente, dos golpistas, esse ser das trevas é um golpista triplamente qualificado. Primeiro porque tomando o que não lhe pertence está realizando um atentado à propriedade privada. Segundo por silenciar o meu direito de me expressar politicamente. E terceiro e ultimo golpe se dá porque, como diz o ditado, filho de peixe, peixinho é, logo, cria de golpista, golpista é.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Na estrada

 Imagem de road, travel, and tree

Detesto ter que admitir isso, mas tenho um coração bem mais mole do que eu gostaria. Sou o tipo de pessoa que se emociona com facilidade ao ver certas cenas de novela ou mesmo ao ler certos trechos de livro. Sempre fui romântica e, apesar dos clichês, de achar grande parte das pessoas dramáticas e de revirar os olhos na frente dos outros, nunca deixei de ser.
Sempre sonhei com o dia em que eu me casaria com o homem perfeito, teria um apartamento no alto de um prédio e poderia compartilhar com ele as felicidades próprias do amor e dos futuros filhos. Seria bem sucedida, uma mulher elegante, magra e com um marido a la Reinaldo Gianechini do meu lado, me levando para passeios na Europa, me enchendo de presentes e me dizendo que eu era a mulher da sua vida.
Bem, isso faz parte de uma idealização que a gente acaba construindo inconscientemente quando passa a infância assistindo filmes de princesas e novelas brasileiras. Há sempre uma luz no fim do túnel, há sempre um final feliz pra ser alcançado.
Será?
Apesar dos meus poucos 21 anos já vivi tanta coisa que, agora, acho difícil acreditar. Vi meu coração sendo arrancado de mim brutalmente quando descobri que minha avó materna, com quem convivo desde que me conheço por gente, tinha Alzheimer. Senti o peso da traição quando meu avô saiu de casa. Me recuperei um pouco, mas logo que eu achei que estava bem, ao descobrir numa amizade o amor, tive que me mudar. Desde então nos encontramos a cada dois ou três meses. Enfrentei uma depressão profunda ao sair de casa para seguir meu sonho de ser jornalista. Convivi com uma família que, apesar do mesmo sangue, não me pertencia.
E agora, a poucos meses de me formar, sinto um aperto no peito e um nó na garganta. Ao ver tudo o que eu consegui enfrentar meus próprios demônios, mesmo sabendo que eles não deixarão de existir - mas terão menos força. Ao mesmo tempo me sentir amedrontada com o futuro incerto que vem pela frente. Eu já não idealizo a vida como antes, nem sou inocente a ponto de acreditar em finais felizes.
Na verdade eu tenho acreditado cada vez mais que a felicidade não é um momento permanente na nossa vida, mas um estado de espírito. E é claro que ele vai depender de nossas escolhas, por menores e mais insignificantes que elas possam parecer.
Eu não sei quantas tempestades vão surgir na minha frente, quantas vezes eu vou ter vontade de pular do barco ou mesmo que rumo essa viagem vai tomar. Isso porque a vida não é um caminho único e certeiro, mas um caminho permeado por outros caminhos e milhares de possibilidades.
Cabe a nós fazer as escolhas certas para nós mesmos. E só assim, quem sabe, experimentar um pouco dessa tão sonhada felicidade, transformando, assim, o final feliz num verdadeiro recomeço.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Só hoje

 Imagem de fernanda


Hoje foi um dia difícil.
Na verdade, todos os dias têm seu tom de dificuldade. Só que existem aqueles nos quais os problemas parecem ser maiores que a nossa força de atravessá-los.
Briguei, chorei, fui ignorante, fui ignorada, a dor me cortou e talvez eu tenha usado meus cacos para atacar algumas outras pessoas.
A dor sempre nos coloca para repensar.
Hoje um amigo canino se foi.
Um pedaço do meu coração foi levado junto com ele.
Eu realmente quero aprender a lidar com as ausências e perdas que a vida, uma hora ou outra, nos impõe.
Mas hoje não.
Hoje eu não quero deixar de chorar para extravasar a tristeza que me machuca. Eu não quero me fingir de forte nem ser tomada como insensível perante a dor alheia.
Hoje eu não quero ser melhor nem pior.
Não quero sequer me esforçar para ser nada além do que eu sou.
Só hoje.
Amanhã há de ser outro dia.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Em busca do respeito perdido

Lembre-se: Nada te dá o direito de pôr o dedo na cara de ninguém

Pra ser bem sincera, a forma como as pessoas têm lidado com o cenário político brasileiro atual tem me preocupado bastante.
Tempos atrás, compartilhei no meu facebook um questionamento relativo ao apoio desmedido quanto à necessidade de prender o ex-presidente Lula, enquanto políticos como Aécio Neves e Eduardo Cunha não eram tratados com as mesmas mãos de ferro. E recebi um comentário extremamente agressivo de um tio da minha mãe, em que ele me chamava de imbecil por, supostamente, acreditar que Lula não teria culpa no cartório. Detalhe: horas depois o comentário foi apagado.

Mas eu gravei um print no celular. Infelizmente, seu comentário ainda sobrevive na memória eletrônica do meu celular, e na minha.
Falo isso não por rancor, nem raiva de uma atitude impensada e agressiva como essa.
Falo isso por ficar triste ao ver que, primeiro, as pessoas distorcem o que a gente diz e, segundo, por ver o quanto o partidarismo consegue cegá-las a ponto de desfazer amizades e agredir verbalmente até mesmo parentes de sangue.
Parece que um ódio ao oposto, ao diferente, tem se espalhado de forma abrupta pela nossa sociedade, a ponto de desfazer laços, quebrar relações e, principalmente, dissolver o respeito entre as pessoas.
É preocupante que as pessoas tomem partido, seja ele político, partidário, religioso, e usem dele para tentar se sobrepor à opinião contrária.
Eu tenho clareza de tudo o que vem acontecendo no Brasil, principalmente por conseguir abrir minha mente o suficiente para ver uma corrupção que vem, não só de um lado, mas de vários.
Mas se você acredita mesmo que a resolução para tudo está, por exemplo, em tirar uma presidente que não cometeu nenhum crime de responsabilidade legal do poder, tudo bem. Se você acha que o impeachment da Dilma vai mudar o país para melhor, ótimo. Se você acha que o Lula é o cara mais picareta e merece todo tipo de humilhação por conta disso, beleza. Se você acredita que tirar a Dilma e colocar um cara como Michel Temer em seu lugar vai resolver a crise que assola o país, maravilha!
Só se lembre que ninguém tem obrigação de achar o mesmo.
E mais que isso, você não é melhor e muito menos superior a ninguém por pensar dessa forma. A liberdade de expressão, afinal de contas, existe exatamente pra isso. O que não te dá o direito de esculhambar publicamente alguém que pense diferente de você.
Tá aí! Algo que realmente tá em falta: respeito.

Isabela Santiago